Quando conheci Ronildo Maia Leite foi uma supresa feliz, um texto com voz própria, contador de casos e criador de personagens, uma ilha tropical na página fria de opinião. Era a coluna Bom dia, Recife, seu pequeno feudo naquele latifúndio de papel e tinta que é o jornal. Isso foi 1990. Há séculos, portanto.
Depois conheci a filha dele sem saber quem era e o resto interessa pouco, é de família. Mas quando ele virou meu sogro, ganhei um mestre. O sujeito sabia tudo e de todos no Recife, vivos e mortos, principalmente os mortos-vivos. Ele me ensinou o valor da História, não como matéria de pesquisa, mas um artigo em permanente redação.
A História é hoje, não existe essa coisa chamada atualidade. Ensinou a toda uma geração de jornalistas, diplomados ou não, que a vida hoje é uma suíte que vem sendo desenrolada há séculos. O Recife é quadrisecular. Me fez ler 100 anos de jornais velhos em 3 meses, uma viagem no tempo, viagem fantástica. Minha eterna gratidão por aqueles dias de calor e sono, nas hemerotecas dos jornais, arquivos públicos, fungos que me contaminaram de conhecimento puro.
Ensinava, em todos os jornais, aos gritos, é verdade o apelido de Barroada. Mas dava aulas em mesa de bar também, rindo muito de toda a gente sobre a qual escrevia, dando a eles o status não-merecido de gente eterna, no papel da História. Papel jornal.
Miguel Arraes foi sua baleia branca, sua Moby Dick. Mário Melo, um de seus mestres. Samuel Wainer foi seu chefe. Abelardo da Hora, um grande amigo. Tratou a todos com igual humor e interesse, do operário gráfico comunista ao dono do jornal. Mas preferia beber com o operário. Nunca levou desaforo prá casa, mas nem por isso foi besta de se meter com gente armada sem ter, pelo menos, um palitó para vestir, caso fosse.
Era mestre dos títulos. Um branco fuzilou a paz, machete sua sobre o assassinato de M. Luther King. Não precisa dizer mais nada sobre sua categoria. Como escritor, colocou a cidade de Exu no mapa mundi das grandes vendettas, como Firenze ou Nova York. Novo jornalismo, como Truman Capote ensinara. Menos na economia de figuras, símiles e metáforas. ” O vento frio do Atlântico costura mortalhas para os náufragos do Baependi “, era um coisa assim, não me lembro, não vou fazer esse texto com pesquisa.
Escreveu sobre todos os assuntos, sempre partindo ou chegando no Recife. Cidade Invicta. Era boêmio, personagem de si mesmo e carregava no sotaque. Amou as mulheres, por isso brigou com elas, teve oito filhos, o número do infinito. Levou seu estilo de cronista até o limite com o conto e a poesia, fez do Recife sua vila e falou do mundo todo.
É gostoso de ler, será material duradouro para muitos artigos sobre crônicas, história, política, nordeste, linguagem, uma tuia de gente ainda vai conhecer Ronildo. Estará seu texto lado a lado em provas vestibulares com Rubem Braga, Antonio Maria ou Arnaldo Jabor. Nunca soube deixar o Recife, por isso não foi um deles. Também nunca ligou para isso. Recife, umbigo do Brasil.
Colecionava estatuetas de São Francisco e Dom Quixote. Psicologia disso é Jung, seus arquétipos preferidos. Amar as criaturas e defender sonhos impossíveis.

Já com 60 anos se meteu a fazer coisas em computadores, seus moinhos de vento. Foi dos primeiros a fazer livro editado em PC, era o menino de 14 anos, em Garanhuns, de novo. Escrevia, montava tipos, enquadrava a página, prensava o papel na velha impressora plana de seu vizinho da infância. No computador fazia tudo isso, fumando seu Charm, boné de scotsman, um olho só funcionando. Depois ia mostrar aos amigos, na Livro 7, sexta-feira, todo de branco. Feliz da vida.
É assim que vou lembrar dele. Não posso ir à despedida, deixo aqui nesse texto meu até logo.
É a munganga, Camaradas !

Julho 8, 2009 às 1:54 pm
Acho que o ódio seria a palavra errada. Ele tinha uma retro-admiração, digamos, bastante construtiva. Seus argumentos sobre arraes são fatos da história, não tem invenção nem opinião.
VLW !
Julho 7, 2009 às 8:40 pm
Belo depoimento meu amigo, que este descanse em paz..
Julho 8, 2009 às 1:54 pm
VLW !
Julho 5, 2009 às 7:57 pm
Fazia jornalismo com o fígado.Nunca explicou o ódio que tinha por Miguel Arraes.Miguel Arraes nunca ligou.
Julho 12, 2009 às 7:30 pm
Quanto horror perante os céus (como dizia Ronildo Maia Leite) e quanto sentimento mesquinho… pois não entender a grandeza do cunho político-liberalista de Ronildo… só mesmo um viés interesseiro e oportunista poderia fazê-lo… é demais da conta, não!?